Resumo
Este estudo qualitativo e descritivo objetivou analisar, na perspectiva de 29 enfermeiros, a assistência de enfermagem prestada à população transexual nos serviços de saúde. A coleta de dados, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas em uma universidade privada do Rio de Janeiro, foi analisada mediante análise de conteúdo temático-categorial. Os resultados evidenciaram um profundo despreparo da categoria, caracterizado por um conhecimento limitado sobre transexualidade, políticas públicas específicas e cuidados necessários, com 79% dos participantes sem qualquer capacitação prévia. A análise identificou três categorias centrais: a especificidade do cuidar, a discrepância entre a assistência ideal e a realidade cotidiana e as violências institucionais sofridas por pessoas trans. A discussão aponta que a falta de formação acadêmica e de educação permanente, somada a valores morais e preconceitos enraizados, resulta em uma prática assistencial generalista e heteronormativa, que ignora as singularidades dessa população. Esta realidade perpetua um ambiente de cuidado hostil, corroborando a evasão de pessoas trans dos serviços de saúde. Conclui-se que a efetivação de uma assistência qualificada e equânime é intrinsecamente dependente da transformação da formação profissional, com a incorporação transversal da temática de diversidade de gênero nos currículos de enfermagem e da implementação urgente de programas de educação permanente nos serviços.
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