Resumo
O presente artigo se propõe a refletir sobre como a corponormatividade, naturalizada pelo senso comum se revela na construção epistemológica do capacitismo. Ancorou-se no referencial filosófico da ciência de Rubem Alves. Também foram utilizadas a Teoria do Modelo Social da Deficiência e a Teoria Crip, que trazem a ideia de corponormatividade. Evidencia-se uma relação entre capacitismo e vulnerabilidades através da “patologização” dos corpos e das concepções caritativas que emergem a partir do estabelecimento de determinados padrões sociais relacionados aos corpos. Pode-se afirmar que a construção epistemológica do capacitismo, em nível científico, não se baseia no senso comum das pessoas com deficiência, mas sim no senso comum hegemônico da sociedade, o que dificulta o olhar não estereotipado e não “patologizante” do ser. Apesar dos debates sobre capacitismo estarem ganhando espaço nas discussões científicas, tais debates ainda são pouco conhecidos no senso comum, o que dificulta a produção de reflexões críticas sobre suas consequências sociais. Portanto, dar voz às pessoas com deficiência, de forma a assegurar suas participações sociais, emerge como uma das principais estratégias anticapacitistas, que promovem a desconstrução de estereótipos e a valorização da diversidade dos corpos.
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